Na manhã seguinte ao Emmy Awards de 2019, Emilia Clarke acordou com um objetivo: redefinir o que ela entendia como sucesso.
| Zoe McConnell for Variety |
No papel, ela já era um sucesso absurdo. Além de ter estrelado franquias bilionárias como Terminator e Star Wars, ela era praticamente a rainha das séries premium graças à Daenerys Targaryen, a Mãe dos Dragões de Game of Thrones. Mas os filmes bombaram. E em maio de 2019, GoT chegou ao fim de um jeito que deixou todo mundo com raiva — incluindo a própria Emilia, que admite ter ficado "absolutamente furiosa" com o destino da personagem.
Mesmo assim, quatro meses depois ela estava no Emmy concorrendo pela primeira vez na categoria de atriz principal em drama. Perdeu para Jodie Comer (Killing Eve). E foi difícil.
"Tenho vergonha de admitir, mas não ganhar o Emmy foi uma coisa muito significativa pra mim", ela conta. Ela olhou ao redor do teatro e pensou: "Todo mundo já superou Game of Thrones — você é passado." Saiu sem ir às festas e foi pra casa. Na manhã seguinte, prometeu nunca mais agir assim. "Não gosto dessa pessoa", ela pensou sobre si mesma. A solução? Redefinir sucesso. "Porque claramente", ela diz rindo, "eu tenho uma ideia de sucesso de uma adolescente de 13 anos."
Uma carreira construída quase por acidente
Emilia quase nem foi pra escola de teatro — ficou dois anos tentando entrar em lugares como a Royal Academy of Dramatic Art, sem sucesso. Só conseguiu uma vaga na Drama Centre London porque outro aluno desistiu na última hora.
E o caminho até Game of Thrones foi igualmente acidental. Os showrunners David Benioff e D.B. Weiss chegaram a gravar um piloto com outra atriz no papel de Daenerys, mas depois de um feedback péssimo da HBO, refilmaram tudo. Emilia estava trabalhando num museu de cinema em Londres quando seu agente ligou. Ela correu pro banheiro pra atender.
"Falei assim" — ela imita um sussurro dramático — "'Alô?' E ele disse: 'Você já fez audição pra Game of Thrones?' Falei: 'Você tá falando grego. Não faço ideia do que é isso.'"
Depois de várias rodadas de audição em Londres e em Los Angeles, o papel era dela.
O terror das primeiras cenas
No começo, ela estava no sétimo céu ("Fiz três semanas de festa"). Mas quando leu as cenas pela primeira vez, durante uma viagem com os pais, chorou de medo. As primeiras cenas de Daenerys envolvem nudez e situações bem pesadas. "Consegue imaginar o terror?", ela pergunta.
Emilia faz questão de dizer que não viveu nenhuma situação de abuso em GoT — mas sim uma certa insensibilidade em relação ao que uma atriz de 23 anos sente ao ficar nua diante de um monte de estranhos. Em outros projetos, porém, ela diz ter vivido "falta de cuidado", sem querer citar nomes. "Não foi ninguém abusando de poder; foi falta de atenção e consideração."
Por outro lado, ela conta que a cena de sexo da sua próxima série, Criminal, foi completamente diferente. Ela foi ao banheiro e chorou pela versão mais jovem de si mesma, que não teve aquele cuidado.
Dinheiro, fama e os bastidores de GoT
Game of Thrones mudou muita coisa — inclusive financeiramente. Ela conseguiu quitar a hipoteca dos pais. Mas sobre os rumores de que o elenco principal ganhava 300 mil dólares por episódio: "A gente não ganhava isso. Imagina? Estaria andando de Porsche!"
A fama global a assustou e confundiu. "Passei muito tempo tentando entender isso. Aí você percebe que é simples: quanto menos você aparece na TV, menos famosa você é. Vem e vai."
Duas hemorragias cerebrais — e anos de culpa
O que o mundo não sabia era que, logo depois de terminar a primeira temporada de GoT, Emilia teve uma hemorragia cerebral e precisou de cirurgia de emergência. Depois da terceira temporada, veio uma segunda. Ela só tornou isso público em 2019, quando fundou a SameYou, uma instituição de caridade focada na recuperação de lesões cerebrais.
"Por vários anos, senti que tinha escapado da morte e que ela viria me buscar", ela diz. "Senti de verdade que tinha feito algo errado e que não deveria estar aqui." E ainda brinca: "Também achei que isso tinha destruído minha capacidade de atuar — o que algumas pessoas podem concordar!" — e cai na gargalhada.
Além disso, seu pai morreu de câncer após a sétima temporada, bem quando a loucura em torno da série tinha chegado num nível que a fazia ter medo de sair de casa. Depois vieram o final polêmico, o Emmy perdido e a pandemia. "As versões mais extremas da vida aconteceram nesse período de 10 anos", ela reflete.
Franquias que não deram certo — e ela sabe disso
Sobre Secret Invasion, da Marvel, ela diz com uma voz cômica: "Acho que ninguém gostou daquela série, gente. Me desculpa!" E continua: "Star Wars? Não curtiram. Terminator? Nunca deveria ter acontecido. Mas eram trabalhos que eu aceitei, sabe?"
A recepção fria foi decepcionante? "Eu entrei em franquias que já existiam. Então quando não dá certo, não é pessoal."
Redefinindo sucesso — de verdade
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| Zoe McConnell for Variety |
O primeiro passo foi começar a dizer não. O segundo foi mais profundo: aceitar um trabalho simplesmente porque ela ia se divertir fazendo. "Minha conexão com um projeto termina quando dizem 'É isso'. Não é pra mim decidir o que as pessoas vão achar."
Com essa mentalidade, ela topou Next Life, um romance indie no estilo Sliding Doors, com orçamento pequeno, onde interpreta duas versões de uma cantora de jazz. O filme estreia no Festival de Tribeca. "Foi uma das primeiras vezes, desde que tomei essa decisão sobre sucesso, que percebi o quanto isso é verdade", diz ela. Ela e o diretor até fizeram tatuagens combinando de hera para celebrar.
Depois vem Criminal, onde ela vive uma assaltante chamada Mallory, que ela descreve alegremente como "toda decote e correntes de ouro". E há também Ponies, série do Peacock onde ela é a esposa certinha de um agente da CIA que investiga a morte misteriosa do marido na era soviética.
"Foi uma alegria ler o roteiro", ela diz. "Muitas vezes recebo scripts e penso: 'Mal posso esperar pra assistir; não quero estar nele.' Esse não foi o caso."
Além de protagonizar, ela também entrou como produtora — uma experiência completamente diferente de GoT, onde ela não tinha nenhuma voz criativa. "Não era qualificada", ela diz sem mágoa, chamando Benioff e Weiss de "gênios."
O outro lado
Depois de tudo — as hemorragias, a perda do pai, os projetos que bombaram, o Emmy que não veio — Emilia Clarke parece finalmente ter chegado num lugar de paz com tudo que Game of Thrones representou.
"Passei por todos os caminhos tortuosos possíveis para chegar onde estou agora, que é finalmente conseguir ser muito grata por tudo que Game of Thrones fez e me deu. Não me sinto mais presa nele, nem presa nas consequências de ter participado", ela diz. "Me sinto com muita sorte de ter acontecido comigo — e com sorte ainda maior de ter tido tempo pra entender o que foi isso. Agora me sinto firmemente do outro lado."
A SameYou, fundação criada por Emilia Clarke, apoia pessoas em recuperação de lesões cerebrais, financiando novas terapias e pesquisas. Ela diz: "Sei como é sair do hospital sem saber pra onde ir." Com a SameYou, ela quer que outros sobreviventes não se sintam tão sozinhos.







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