O filme estreou em Cannes e chega aos cinemas americanos em setembro — mas a crítica não se convenceu
Victorian Psycho tem tudo no papel para ser um acerto: uma atriz no auge (Maika Monroe), um elenco recheado (Jason Isaacs, Ruth Wilson, Thomasin McKenzie), uma premissa deliciosamente perturbadora e uma estética gótica bem construída. O problema é que o filme não consegue decidir o que quer ser — e acaba não sendo nenhuma das duas coisas direito.
A história
Adaptado do romance da escritora espanhola Virginia Feito (que também assina o roteiro), o filme acompanha Winifried Notty, uma governanta com um passado... digamos, turbulento. Ela chega à mansão Ensor House para cuidar dos filhos excêntricos dos aristocratas Mr. e Mrs. Pounds, vividos por Jason Isaacs e Ruth Wilson. Crianças desaparecidas, afogamentos, bebês encontrados mortos — o histórico da moça é extenso.
O apelido preferido de Winifried é Fred — que também é o nome do demônio dentro dela. E desde o primeiro minuto fica claro que ela não está lá pra contar histórias de ninar.
A ambientação nos Moors do Yorkshire tem ecos de O Morro dos Ventos Uivantes e Jane Eyre, mas o tom é completamente diferente: aqui quem aterroriza é a governanta, não os fantasmas da mansão.
O problema
A crítica do Hollywood Reporter aponta o dedo para a direção de Zachary Wigon como o principal problema. Monroe entra em cena já no limite máximo da loucura — tiques nervosos, olhar perdido, comportamento perturbador desde a primeira cena. Isso deixa o personagem sem nenhuma progressão dramática, sem o prazer da descoberta gradual que faz esse tipo de vilã funcionar.
O filme oscila entre querer ser terror de verdade e querer ser paródia — e não faz nenhum dos dois com convicção. A partitura orquestral de Ariel Marx empurra todos os botões certos de suspense, mas a tensão nunca aparece de fato. O resultado é algo que o crítico descreve como "bobo" — e que se parece mais com um espetáculo Grand Guignol exagerado do que com um horror sofisticado.
O que funciona
O elenco é melhor do que o material merece. Isaacs e Wilson mascam o cenário com prazer genuíno. McKenzie como a camareira nervosa tem seus momentos. E Monroe, mesmo que a crítica não compre completamente ela no modo vilã, se joga de cabeça na loucura do personagem — e merece crédito por isso.
Há também um toque de comentário feminista interessante: os pais da mansão se preocupam obsessivamente com a educação do filho, enquanto a filha é praticamente ignorada. "Não queremos que ela desperdice seus anos férteis em algum instituto", diz Mrs. Pounds. É o tipo de detalhe que sugere que o romance original tinha mais a dizer sobre quem é realmente louco nessa sociedade — mas o filme não aproveita esse potencial.
O único momento em que Victorian Psycho realmente funciona é numa coda final, que encerra a história como uma lenda inglesa antiga. Aí sim dá um arrepio de verdade.
Victorian Psycho estreou na seção Un Certain Regard de Cannes e chega aos cinemas americanos em 25 de setembro, pela Bleecker Street. Sem previsão de estreia no Brasil ainda.






0 Comentários